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UM MANTO DE NEVE VESTE A ALDEIA

Neste Inverno rigoroso, a neve fizera uma visita e vestira de branco os penedos mais escuros e mais duros. Aquele lugar tornara-se num mundo de sonho e de fantasia. As crianças corriam loucas de alegria pelas ruelas e pelos campos. Os mais velhos renasciam com as brincadeiras dos pequenos. A professora Rute, tantas vezes severa, nesta altura também ela revivia com os seus alunos as brincadeiras sempre iguais de há três décadas. O milagre da natureza acontecera naquela segunda-feira de Fevereiro! Sem aulas, o dia estava já planificado para o bando de pardais que saíam da escola: construir bonecos de neve e "guerra da neve". À noite, ouviriam sermão e missa cantada mas ninguém deve impedir que uma crianças quebre as regras, pois estas tinham sido quebradas pela mãe natureza.

À APANHA DA PÉROLA NEGRA I

O sol de Inverno levantava-se lentamente no horizonte. O frio fazia-se sentir ao longo da encosta. O rancho de homens e mulheres faziam os preparativos em casa do Sr. Alípio para dar início a mais um ano de colheita da azeitona. Os burros eram prendados com os toldes que iriam apanhar a azeitona castigada pela varas dos homens que arricavam constantemente a sua vida para subir às altas oliveiras. Os petizes ficavam a dormir. Chegariam mais tarde, quando o sol esquentasse, e permitisse brincar à "apanha dos berlindes negros". O mata bicho , um copo de aguardente e um naco de pão serviam de estimulante para a dura tarefa que os esperava. Os cestos para a apanha da azeitona iam de mão dada com as mulheres e moças solteiras. Para estas, poderia ser a oportunidade para arranjar marido no meio das cantorias que serviam de bálsamo para ajudar a fazer esquecer às mãos gélidas, resultado dos beijos repenicados, com os dedos frígidos, nas pérolas negras.

O NATAL NA ALDEIA

Na aldeia, o vento gélido beijava ternamente a torre da igreja. Lá fora, as luzes brilhavam mais que nunca. O sacristão já tocara para a missa do galo. Os "lisboetas" deliciavam-se com as filhós amassadas pelas mãos duras e calejadas das gentes da serra. O Sr. Padre viera consoar a casa do Sr. Alípio. Aqui não faltava nada. O desejo de agradar ao prior fizera com que o orçamento para esta época aumentasse. O pão-de-ló, oriúndo da cidade vizinha, era o símbolo da riqueza em terras cujas suas gentes viviam com o "pão nosso de cada dia". Na casa da Sra. Alice, a sopa de natal, tida para os ricos como a "vianda do povo", deliciava os pequenos e graúdos. No silêncio da noite, a solidão fazia-se ouvir pela voz do "Aventoinha".Naquela noite, até os corações de pedra se tornavam em corações de carne. O Deus dos mais fracos e dos infelizes fazia-se ouvir na voz rouca daqueles que ao longo do ano vivem sem amor. O acto de amar ainda é visto com estranheza...

"Uma pequena lágrima fez-lhe um visita pela janela do coração"

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A vida dura era compensada não só economicamente mas, essencialmente, por uma grande liberdade interior. O reverso da medalha também o acompanhava, as saudades dos seus e da terra povoada de penedos, Na fábrica de componentes para automóveis, era estimado e respeitado por todos. O seu carácter solidário rapidamente fazia atrair os corações mais duros na terra da liberdade e da democracia. O Natal aproximava-se. Este ano não poderia estar na sua terra e no seu lar. Iria passá-lo na companhia de outros que, como ele, andam lá fora a lutar pela vida. - Anima-te, Artur! O bacalhau e as couves regados com o bom vinho lá da terra não irá falta! - Eu sei, Carlos! Vai faltar-me o o rebuliço dos meus filhotes e a história de Natal que eu todos os anos, à volta da lareira lhes contavam. Uma pequena lágrima fez-lhe uma visita pela janela do coração.

A VIAGEM

Artur, ao longo da viagem, reflectia e ansiava pela chegada. Reflectia sobre a sua terra e a sua gente. Concluia que toda a agente deveria fazer um "estágio" fora da sua terra, para depois regressar, consciente que não é sabedor de tudo e que necessita dos outros para fazer desenvolver a sua terra. Os outros que regressam são possuidores de um conhecimentos que deveria ser aproveitado pelos residentes. Chegara a "Le Cerqueux". Iria trabalhar numa fábrica que produzia material para automóveis. Nessa noite iria dormir em casa do seu amigo. No dia seguinte, seria o seu primeiro dia de trabalho em terras gaulesas.

ARTUR, O EMIGRANTE

O caminho para a aventura estava a começar. Uma nova terra esperava Artur. A Gália que no tempo dos romanos era inviolável, agora encontrava-se aberta a todos aqueles que desejassem trabalhar e contribuir para o desenvolvimento de um país mais evoluído do que o nosso. ´ Na pretérita noite, o Artur pouco dormira. Tinha combinado com o seu primo Luís que partiria com ele na manhã seguinte. Uma dor enorme o envolvia. Não queria ainda sacrificar o filho e a família nesta viagem e nesta nova vida em terras de França. Queria, primeiramente, desbravar estas novas terras para mais tarde trazer os seus. Num beijo e num abraço muito terno e saudoso renovou com a sua esposa um amor eterno. Seria um até logo. O filhote saltou-lhe para os braços e com uma maturidade pouco habitual para a sua idade prometeu-lhe que tomaria conta da mãe e continuaria a demonstrar a sua humanidade perantes os seu semelhantes.

A PARTIDA

A feira semanal estava a prestes a findar. A subida íngreme até ao cimo da vila fazia-lhe lembrar o arriscado desafio que Artur enfrentara. Mais uma vez, o poder instalado dotado de mediocridade vencera. Todavia, o seu interior estava tranquilo. Agora, tinha a plena consciência que podia partir em paz para outras paragens e aí depositar o seu valor e o seu afeto numa outra terra que de certeza ninguém o iria olhar de lado só por ter um projeto e uma ideia diferente para a sua terra. "Santos da terra não fazem milagres!". Tinha tomado a decisão de partir. A ida à feira tinha um sabor de despedida. Decidira emigrar. Contrariamente a muito dos seus conterrâneos, esta era uma partida para concretizar os seus ideais.