Quinta-feira, 8 de Março de 2012

O VALE DO CORVO


António, naquela manhã, resolvera correr pelos campos e fazer uma visita ao melrozito que habitava numa pequena oliveira, no Vale do Corvo. O povo denominava aquele local como "Vale Côvo". O respirar ofegante da pequena ave transparecia medo do mundo. O seu ser protetor voara em busca de alimento. Sentia-se desprotegida. Todavia, aquele humano parecia amigo. Lentamente, António retirou o melrozito do ninho e acarinhou-o junto a si. O "tic-tac" do coração ia-se tornando menos intenso. Aquele menino conseguira transmitir confiança àquele ser. Ao longe, as andorinhas observavam e faziam voos de alegria. Aquele humano amava a natureza e os seus habitantes. De repente, ouve-se o eco de uma voz:
- Antóoooooonio!
Os montes e vales traziam a voz do seu amigo Carlos. O seu amigo sabia que aquele vale era o refúgio da pequenada, pois, ali, a harmonia entre os humanos e a natureza ainda existia. O rio espelhava uma pequena nuvem que presenciara aquele encontro.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

SETEMBRO

Setembro aproximava-se. Com ele, vislumbrava-se já o quadro negro, o giz branco, a secretária da senhora professora e o Cristo crucificado.As férias estavam prestes a terminar. A rotina da escola era quase uma realidade. A passagem pela tasca do "Ti Zé" para comer o paposeco com molho das iscas, era um dos lados bons deste mês. Para António, era também o tempo da "caça" aos tralhões que nesta época abundavam nas serras e vales da sua terra. As oliveira e árvores de frutos recebiam estas pequenas aves que nesta época davam mais vida a uma terra com cada vez menos vidas. A festa da sua aldeia, que trazia muitos lisboetas à sua aldeia, tornando-a ainda mais rica, realizava-se, igualmente, neste mês. Nem tudo era mau! O fim das férias trazia também consigo a concretização de pequenos sonhos e o abraçar de novos desafios.

Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

"OS LIMITES DO MEU MUNDO SÃO OS LIMITES DA MINHA LINGUAGEM"

A escola nem sempre fora o local preferido de António. As árvores e os cheiros da natureza provocaram-lhe sempre um fascínio primordial. A mãe terra era a cátedra da vida. A arte na sua plenitude era oferecida pela mãe natureza. O quadro de um ribeiro que sussurra ao melro com a sua límpida água fazia inveja ao pintor mais famoso. Os grilos acompanhavam a passarada como se de  uma orquestra se tratasse.  A linguagem da natureza era uma linguagem artística. António só não vislumbrava a arte da escrita. De facto, esta forma sublime de comunicar só a poderia conhecer na escola.
Agora compreendia que os limites do mundo de cada um dependem dos limites da((s) linguagem(ns) que se adquirem.

Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

A PRIMAVERA A SORRIR


Era o mês de Maio que chegava com todo o seu fulgor. Toda a energia telúrica milagrosamente presenteava os humanos com belíssimos ramos de múltiplas cores. A cor amarela e branca destacava-se no meio desses montes, há muito ignorados pelos humanos. As terras agrícolas tornam-se negras e servem de sepultura ao inocente grão de trigo. Os grilos saem das suas tocas e das suas asas surge a cantiga inconfundível.
Os corações batem mais forte.
Na grande cidade, os amantes recordavam com saudade esse quadro único mas incompleto. Faltava o penedo onde se deviam sentar aqueles dois corações que lá longe sonham um dia regressar.

Sexta-feira, 11 de Março de 2011

UMA CORRENTE DE ÁGUA CRISTALINA

Os olhos negros de Ana eram o espelho da alma cada vez mais preenchida pela decisão tomada. A grande cidades trazia uma luz maravilhosa. Carlos conhecia a grande cidade. Percorrera há algum tempo aquelas ruas e ruelas onde o cruzamento de raças, sons e olhares a tornavam "cidade multicultural". Agora, a companhia de Ana tornavam aquele local ainda mais vivo e pleno de significado. A pequena aldeia ficara para trás. A liberdade era uma realidade. Não uma liberdade qualquer. Somente esta, levaria de certeza à infelicidade. O risco da aventura deveria merecer uma felicidade sólida, construída sobre as rochas. Por isso, a responsabilidade e cumplicidade faziam parte deste relacionamento que colocava em causa a lei que vigorava na aldeia: "Menina rica enamora-se com Homem rico". 
A "felicidade" forçada não podia continuar a vigorar! O exemplo e a coragem de Ana e Carlos, murmurada por alguns, era glorificada e admirada por outros.
As águas paradas que não moviam moínhos tinham naqueles dois uma corrente de água límpida e cristalina que traria VIDA, tão necessária naquela terra sem alma! 

Domingo, 14 de Novembro de 2010

A UVA TINTA

O Verão terminara. Com o regresso do Outono a labuta do campo continuava. Agora era o néctar dos deuses que era necessário sugar daquelas encostas que recebiam beijos calorosos do sol e faziam brilhar reluzentos cachos de uvas. É a festas da família e dos amigos. A dureza do trabalho era ultrapassado pelo convívio e pela partilha. Os burritos caminhavam por vales encostas transportando as uvas deliciosas que iam sangrando. A feijoada retemperava as forças tão necessárias para fazer cumprir aquele ritual pré-outonal. Quando o trabalho campal cessava, iniciava-se o ritual caseiros da pisa da uva. Os homens, num abraço fraterno, faziam transformavam o bago em vinho. Esse mesmo vinha inspirava os "pisadores" nas cantigas que entretanto se faziam ouvir pelo serpenteado da aldeia. Um acordeão, por vezes, tornava este momentos ainda mais deliciosos.

Domingo, 13 de Junho de 2010

OS SANTOS POPULARES

As ruas naquela tarde de Junho, exalavam um cheiro especial. Os rosmaninhos começavam a amontoar-se pelas ruas e largos da aldeia. Os petizes já tinham ido aos montes buscar a flôr do S. João. Iniciava-se a construção das pequenas capelas com o Santo emprestado pelas senhoras mais idosos e com múltiplos apelos para que não o partissem.
António e Carlos lideravam as festividades na sua rua. Foram eles quem construiram a capelinha do S. João com mimosas e giestas.
A noite trazia sons, cores e cheiros à aldeia linda. Dos Rádios/gravadores jorravam os primeiros acordes do "Viva o Santo António, Viva o S. João...". As sardinhas assadas eram acompanhadas com o bom e puro vinho das videiras mimadas e acarinhadas pela gente que trabalha o campo.Esse amor era compensado com um néctar que não provocava qualquer dor de cabeça no dia seguinte. A alegria estava no ar! O "Zé Mau" (mau de nome mas bom de coração), acompanhado do seu gravador percorria todos os pontos de encontro daquela terra. Em todos, ele era bem-vindo e convidado a "beber mais um copo".